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CONSTRUINDO UM PLANO DE EXPRESSÃO PARA EXEGESE BÍBLICA


 Qual é o texto a ser interpretado? (do ponto de vista da crítica textual e genética)?
2. Como o texto está delimitado, segmentado e estruturado?
3. Que elementos do plano de expressão contribuem mais intensamente para a produção do
sentido? Para impressionar melhor?
COMO FAZER
1. Familiarize-se com o texto, mediante repetidas leituras e do contexto literário ao qual
ele pertence, e a anotação de suas características mais marcantes, as dúvidas e as primeiras impressões que o texto nos evoca e provoca.
Alternativa complementar:
Estabelecer o texto, mediante a aplicação dos princípios da crítica textual e da crítica genética (somente se você considerar necessário), e traduzi-lo provisoriamente (apenas no caso de você usar o texto bíblico no idioma original se não não).
2. Situar o texto e se inteirar, provisoriamente, em seu contexto histórico, mediante o uso de bibliografia apropriada.
3. Identificar as marcas lingüísticas que permitem a delimitação e a segmentação do texto.
4. Notar os elementos da textualidade que poderão contribuir para a análise do plano de conteúdo.
5. Elaborar uma síntese.

EXEMPLO 1 (FORMA DESCRITIVA) Marcos 12
9 Naqueles dias, veio Jesus, de Nazaré da Galiléia, e por João foi batizado no rio
Jordão. 10 Logo ao sair da água, viu os céus rasgarem-se e o Espírito descendo COMO POMBA.
 Procuramos destacar aspectos gramaticais e semânticos importantes para o aprendizado do método. POMBA sobre ele. 11 Então foi ouvida uma voz dos céus: Tu és o meu FILHO AMADO, em ti
me comprazo.
Interpretar essa passagem no contexto da redação final do livro (meados dos anos
70 d.C.), e não nos possíveis contextos recuperados pela crítica genética (seria possível,
também, interpretá-la no contexto da vida terrena de Jesus [meados dos anos 20 d.C.)],
ou em algum dos momentos da história da tradição desse texto, anterior à redação por
Marcos).
A delimitação dessa perícope foi quase toda feita no início deste capítulo. Faltou
verificar se, de fato, no versículo 9 temos o início de uma nova. Em relação à perícope
anterior (Mc 1:2-8), as marcas lingüísticas indicam mudanças de tempo, espaço,
vocabulário e gênero textual — suficientes para considerar o versículo 9 o início de uma
nova perícope.
A segmentação do texto é marcada pelos seguintes elementos:
 mudanças de tempo (palavras em itálico), nos versículos 9, 10 e 11; de local (palavras sublinhadas), nos versículos 9 e 10; e de pessoa verbal no versículo 11, em relação aos versículos 9 e 10
(palavras em negrito) — o que sugere três segmentos na perícope, estruturados de
forma linear, típica das narrativas:
Versículo 9 (a viagem de Jesus para ser batizado), versículo 10 (a visão que Jesus teve do Espírito), e versículo 11 (a audição pública da voz celestial). O gênero da perícope é híbrido: mistura o “relato” de acontecimento com a palavra de “investidura” em cargo oficial.
Os elementos da textualidade que me parecem mais relevantes para posterior análise são:
A mudança da ordem das palavras na sentença “veio Jesus”;
O uso da voz passiva para falar do batismo de Jesus (que coloca o peso do texto sobre o próprio Cristo), conjugado com a colocação de “por João” antes do verbo, que modifica a ordem normal de sentenças com a voz passiva;
E a voz passiva no versículo 11, que indica sujeito indeterminado, diferenciando os sujeitos da visão (Jesus, no v. 10) e da audição (todas as pessoas que estavam no local, v. 11).
 A coesão do texto é típica de narrativas, com destaque para as conjunções logo e então. Em síntese, temos uma perícope bastante despojada, simples, fácil de ler e que comunica seus sentidos de forma quase que telegráfica. Sugere uma forte dinamicidade, dos eventos ocorrendo em cadeia, um imediatamente após o outro, mudanças rápidas de lugar, com o peso recaindo sobre Jesus, que ao que tudo indica é o personagem principal da perícope.

EXEMPLO 2 (FORMA DISSERTATIVA)
Isaías 42
1 Eis o meu servo, a quem eu sustento, o meu eleito, em quem tenho prazer. Coloquei meu espírito sobre ele, justiça para as nações fará brotar.
2 Não gritará, e não levantará, e não deixará ser ouvida na rua a sua voz.
3 A cana rachada não esmagará, e a torcida bruxuleante não apagará; fielmente fará brotar a justiça.
4 Não desanimará e não será quebrado, até que estabeleça na terra a justiça e em sua lei as ilhas tenham esperança.
As seguintes marcas lingüísticas, no versículo 1, indicam o início da perícope:
1. Presença de um novo personagem em relação aos de 41:21-29.
2. Uso de fórmula introdutória de apresentação de oficial [eis].
Quanto ao término da perícope, o versículo 4 parece ser um candidato natural, em virtude de:
1. A presença da fórmula do mensageiro no versículo 5, que nos livros proféticos costumeiramente inicia perícopes.
2. A mudança de assunto, da vocação para a criação divina no versículo 5. Faz parte da tradição exegética delimitar assim essa perícope.
3 Uma alternativa melhor,é considerar todo o trecho de 1-9 como uma única perícope, segmentada em 1-4, 5-7, 8-9, tendo em vista que:
a. O cântico de louvor iniciado em 42:10 muda significativamente a temática e parece ser ou a conclusão de uma longa seção (41:21—42:12) ou o início de uma nova seção. Se for assim, Isaías 42:1-9 funcionaria como contraponto a 41:1-7, uma afirmação a respeito daquele que destrói as nações em nome de Javé.
b. Os versículos 6-7 formam um complemento temático “natural” à descrição da tarefa do servo em 1-4, tanto pela ampliação dela, quanto pela manutenção da temática do reiservo.
c. As afirmações exaltadas a respeito de Javé dão sustentação à vocação e atuação do servo no contexto de seu chamado. Enquanto os versículos 1-4 se dirigem à assembléia divina reunida na corte celestial e os versículos 5-7 se dirigem ao próprio servo, os versículos 8-9 retomam o anúncio à assembléia divina.
d. O estilo e a estruturação de Isaías 40—55 não seguem as formas tradicionais da literatura profética, a presença de gêneros híbridos é predominante nesta seção de Isaías, e a presença da fórmula do mensageiro não seria um sinal tão forte de início de perícope.
Para efeitos de nosso estudo, vou me restringir a Isaías 42:1-4, embora eu considere que Isaías 42:1-9 forme uma unidade significativa. Na prática, faço isto também para mostrar que podemos usar parte de uma perícope para a realização da exegese, por causa de nossos interesses. Ou seja, a perícope não é uma unidade rígida, fechada, que deve ser seguida a qualquer preço.
Isaías 42:1-4 está assim segmentado e estruturado em um padrão concêntrico, no qual os versículos 2-3 ocupam o lugar central e os versículos 1 e 4 correspondem formalmente entre si:
a. investidura e tarefa do servo (v. 1).
b. modo da realização da tarefa pelo servo (v. 2-3).
a’. perseverança do servo e alcance da sua tarefa (v. 4).
As características do plano de expressão que serão mais úteis na análise do plano de conteúdo são, em primeiro lugar, a forma poética do texto, com seus vários e típicos paralelismos:
1. “Eis o meu servo, a quem eu sustento; o meu eleito, em quem tenho prazer” (paralelismo sinonímico, na primeira parte do versículo). “Coloquei meu espírito sobre ele, justiça para as nações fará brotar” (paralelismo climático, quando olhamos o v. 1 e seu todo).
2. “Não gritará e não levantará e não deixará ser ouvida na rua sua voz. A cana rachada não esmagará e a torcida bruxuleante não apagará. Fielmente fará brotar a justiça” (paralelismo climático quando olhamos o todo, e uso da enumeração quando olhamos para as metáforas que explanam a tarefa do servo).
3. “Não desanimará e não será quebrado até que estabeleça na terra a justiça, e em sua lei as ilhas tenham esperança” (paralelismo climático, no todo, e sinonímico nas duas últimas linhas).
Além dos paralelismos e da estrutura concêntrica, serão úteis na análise do plano de conteúdo: a profusão de metáforas nos versículos 2-3 e o uso da terminologia oficial de investidura, que faz de Isaías 42.1-4 uma perícope de gênero híbrido e aponta para uma variedade de relações intertextuais e interdiscursivas.
CONCEITOS BÁSICOS
Plano da expressão (texto). Todo conteúdo que desejamos comunicar precisa receber uma forma concreta para que seja acolhido por outras pessoas. A essa forma concreta damos o nome de plano de expressão. Exemplos: fala, textos escritos, fotos, pinturas, sites,canções etc.
Cada forma de plano de expressão possui regras próprias de análise, demandando, assim, várias semióticas (semiótica de texto, semiótica visual, semiótica plástica, semiótica da canção etc.). Como trabalhamos com textos escritos, nosso plano de expressão é, simplesmente, texto, e as regras de sua formação são explicadas pela textualidade (textualização, então, é o conjunto de mecanismos lingüísticos e culturais
necessários para a produção de textos).
Plano de conteúdo (discurso). O mesmo conteúdo pode ser transmitido por diferentes planos de expressão, o que justifica a separação teórica entre os dois planos. Na semiótica greimasiana se entende que, qualquer que seja o plano da expressão, as regras de funcionamento do plano de conteúdo e os conceitos explicativos e os procedimentos de análise serão os mesmos.
Ou seja, na prática, os mesmos procedimentos de análise do plano de conteúdo aplicáveis a textos podem ser usados com qualquer outro plano de expressão. Outro termo usado para se referir ao plano do conteúdo é, simplesmente, discurso (e as regras para seu estudo, discursividade). No caso do estudo de textos, há um sincretismo entre o plano de expressão e o plano de conteúdo, pois ambos são “lngüísticos”. Por isso, os termos texto e discurso são, muitas vezes, usados sem qualquer distinção.
Crítica textual.
Disciplina científica voltada para o estudo dos processos de transmissão e cópia de manuscritos, que estabelece critérios para a definição da qualidade das cópias, para a história das cópias, para o estudo dos principais erros de cópia presentes em manuscritos etc. No caso dos textos bíblicos, ela é de grande importância, uma vez que não dispomos dos originais, mas apenas de uma quantidade relativamente grande de manuscritos copiados, bem como de traduções antigas, também manuscritas. As versões modernas da Bíblia procuram incorporar os resultados da pesquisa crítico-textual, de modo que podemos usá-las com confiança.
No trabalho técnico, o uso dos idiomas originais e, conseqüentemente, da análise crítico-textual é importante e serve como um dos sinais da qualidade acadêmica de pesquisadores e pesquisadoras Crítica genética. Uso esse termo para significar todo um conjunto de métodos e seus respectivos procedimentos, que foram desenvolvidos nos últimos três séculos especialmente pela pesquisa histórico-crítica. É genética porque seu objeto primário é a explicação da origem dos textos e de seu processo de elaboração, desde a possível origem oral até sua forma final nos livros da Bíblia.
 Optei por não incluir esse tipo de trabalho neste manual, o que não quer dizer que ele não seja importante e necessário para que possamos compreender melhor a história da religião, do pensamento e da teologia de Israel e dos primeiros cristãos. Como é uma atividade altamente especializada, é preferível recorrer aos manuais próprios de exegese histórico-crítica a simplificar e caricaturar a crítica genética.
 Do ponto de vista da compreensão do sentido, a contribuição da crítica genética é mais voltada para a reconstrução dos contextos históricos em que os textos foram escritos e para a compreensão dos processos de textualização usados na antigüidade.

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